De flores, cactos e macaíbas

Para que serve uma flor? Uma flor perdida no meio do meu jardim se eu mal lebro se ela existe?

 Estou tão longe de tudo o que me cerca, quase igual aquele povo do comercial de TV - que tem um orgasmo quando vê umá réstia de sol se pôr ou uma plantinha parecida com feijão nascendo no asfalto - que vejo a hora não discernir mais entre um galo-de-campina e um pardal.

Minha vida está presa entre quatro paredes  ou enlinhada numa rede de computador que mais me cansa os olhos que me alimenta.

Acho que preciso usar sutiãs mais macios, chupar manga  no meio da tarde - sem me preocupar se os dentes vão ficar vestidos de fiapos amarelos -e abraçar uma árvore.

Ultimamente, sinto que estou mais abraçando cactos e dando murro em ponta de faca que qualquer outra coisa na vida.

E isso me leva a lembrar com saudade dum tempo em que meu nome era infância  e minha maior diversão era subir num pé de goiaba e ficar, lá em cima, lendo um novo livro.

Ai acho que estou precisando mesmo é chupar macaíba -aquela frutinha da casca dura, com polpa amarela, gosto engraçado e que deixava sua marca em nosso dentes. A propósito: ainda existe macaíba por aí? Se alguém souber, aceito doações.

 



Escrito por Angélica Lúcio às 00h48
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Tarciana descobriu o curry

Acho que foi amor à primeira vista.
Estava ali, o pacotinho, lacrado, com nome estranho, e que ela não sabia para que servia.
Um dia, ela me viu usando o temperinho no arroz e gostou.
Agora, o colorau não entra mais na minha cozinha.
Tarciana - minha 'secretária do lar' - 
descobriu o curry e eu não consigo mais almoçar em casa... 



Escrito por Angélica Lúcio às 15h12
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Bicho-homem

O desinteresse pelos outros tem se tornado algo latente no ser humano. Há certo tempo, chocou-me uma fotografia, tirada no Rio de Janeiro, na qual viam-se pessoas passeando, namorando, brincando e até posando para fotos sem prestar atenção no corpo ao lado, lá estendido no chão. Estava ali um ser humano, ou o que sobrou dele, e isso não incomodava a ninguém. Podia ser um cachorro morto, um pássaro ferido, uma lata de lixo. Tanto fazia.
Esta semana, nos Estados Unidos, uma senhora cai no meio da recepção de um hospital, fica lá, estendida no chão, outros pacientes vêem, um vigia olha, vira o rosto e nada. Se passa uma hora até que alguém a socorra. Não adianta mais. A vida já se foi.
Cada vez mais me surpreendo com o ser humano. Tenho muito medo desse bicho-homem, preso em sua própria selva de egoísmo.


Escrito por Angélica Lúcio às 01h03
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