Escafandro


O presente

Por meio de Astier Basílio, repórter de Cultura do Jornal da Paraíba e escritor dos bons, conheci a poesia de Alberto da Cunha Melo, poeta pernambucano.

No Dia Nacional da Gentileza, comemorado em 29 de maio, Astier me 'mimou' com o poema abaixo – pleno de beleza e profundidade.

Na hora, fiquei em silêncio, e não contei nada para Astier, mas agora, admito minha ignorância: até então, desconhecia completamente quem era Alberto da Cunha Melo. Felizmente, fui socorrida pelo Google e descobri que se trata de um escritor nordestino, pernambucano de boa cepa e com uma obra fantástica. Para saber mais: http://www.albertocmelo.com

O presente

(Alberto da Cunha Melo)


O que hoje recebes

e não podes pegar, guardar

em panos e papéis laminados,

é imperecível,

presente onipresente.

Estás com ele na chuva

e não temes que se desfaça.

Estás com ele na multidão

e não o escondes

dos mutilados.

O que não existe para os homens

deles estará protegido,

o que os homens não vêem

não poderão espedaçar.

Eis o que não te denuncia

porque não tem face

nem volume par ser jogado no mar.

Eis o que é jovem a cada lembrança

porque não tem data para envelhecer.

O que hoje recebes

Não pode ser devolvido.



Escrito por Angélica Lúcio às 09h10
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Mudanças

"- O que é que houve, meu amor, você cortou os seus cabelos?

- Foi a tesoura do desejo, desejo mesmo de mudar"

(Tesoura do Desejo/ Alceu Valença)



Escrito por Angélica Lúcio às 14h25
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Poema triste

Me emocionam palavras bonitas

E mais ainda as não ditas,

a dor de mãos alheias

a soçobrar com o inevitável.

Os cabelos vermelhos

foram embora,

mas ainda emaranham o tempo.

Tia Mariquinha

não toma mais uísque

na Praia do Poço

Nem me sorri

com pequenos olhos de gata,

a timidez da família

a espiar na varanda.

Em nova lápide,

aquece pequenos anjos

e pede mais um gole

da eterna saudade. 

 

Angélica Lúcio

 

Tia Mariquinha, uma das irmãs do meu pai, morreu nesta madrugada. Vai dormir em paz.



Escrito por Angélica Lúcio às 21h43
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Poema novo

Era um tempo de delicadezas.

A doçura se mostrava

em xícaras e pires combinados,

um certo jeito de arrumar

sorrisos entre as flores

e o pano de prato novo

se queria conversa entre as visitas.

Vaquinhas, galinhas e mínimos

morangos rescendiam a novidade.

O bordado ganhava corpo,

respirava a sal, frango refogado,

salada de atum com banana

e era mais forte que tudo

o que eu vira nos livros.

A poesia não estava em mim

ainda que já tivesse devorado

Drummond, Bandeira e Cecília.

Mas a vida toda eu soubera

que tantos versos eu fizesse,

sempre seria menos que

o rastro de lilases,  róseos e azuis

trazido do passado.

 

Angélica Lúcio



Escrito por Angélica Lúcio às 20h57
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Personagem vivo

Nem Kafka, a ponto de criar 'Metamorfose'.

Tampouco Clarice Lispector, com 'A Paixão Segundo G.H.'  

Mas também tenho minha barata - e ela acaba de entrar na sala, voando através da varanda.

Estou só em casa e não tenho coragem de sair do canto.

Ela é enorme e se movimenta  como quem se sabe amedrontadora.

Estou com nojo.

Estou com medo.

E não sei o que ela fará se descobrir que é mais forte do que eu...

 



Escrito por Angélica Lúcio às 19h21
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